Assunção Cristas: Em coligação "seria mais fácil" derrotar o PS em Lisboa, mas o PSD não quis
Quarta, 19 Abril 2017 20:22    PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

assuncao cristas rr copyEm entrevista à Renascença, a candidata do CDS à autarquia da capital tece duras críticas a dez anos de liderança socialista. Diz que não quer uma cidade de "botox", para turista ver, e promete dar prioridade às questões da mobilidade rodoviária e da habitação.

 

Por que razão não há coligação com o PSD para a Câmara de Lisboa?

Houve da nossa parte muita abertura desde a primeira hora, com muita antecedência e conversas. Apesar de ter mantido sempre as portas abertas, não foi possível, a opção do PSD foi outra. Mas nós, desde Setembro, que não estamos a perder tempo. Estamos no terreno, a conversar com as pessoas, com as instituições, com muita gente de áreas muito diferentes e, neste momento, já com um ritmo muito grande na preparação desta candidatura a Lisboa.

Em seis meses fizemos mais de cem reuniões e visitas. Estamos a receber e a ler, com muita atenção, as respostas à carta que eu enviei a todos os lisboetas e tem sido extraordinário. Temos mais de 15 mil respostas por e-mail, em papel, que nos dão também um quadro daquilo que são as preocupações dos lisboetas.

Tivemos ontem [terça-feira] a oitava sessão do nosso ciclo de conferências "Ouvir Lisboa", que é coordenado pelo professor Carmona Rodrigues, e que nos tem trazido temas tão diversos. O primeiro foi a pobreza, exclusão social, sem-abrigo, bairros sociais; o de ontem, por exemplo, foi sobre saúde e vamos continuar a este ritmo até ao final de Junho, e, portanto, estamos com muito trabalho, com uma grande intensidade de preparação também nas nossas estruturas e com grande ânimo.

Não há coligação em Lisboa porque o PSD não quis.

Certamente, sim.

Se o PS permanecer na liderança da Câmara de Lisboa após as próximas eleições, a responsabilidade será do PSD ?

Farei tudo o que está ao meu alcance para ser presidente da Câmara de Lisboa e tenho dito, muitas vezes, ao meu partido que temos de ter ambição máxima. Estou a preparar-me com muito estudo, muito trabalho no terreno, ouvindo muita gente, ouvindo todos os lisboetas, para poder ser uma boa presidente de Lisboa e gostaria e gostarei imenso que essa oportunidade me seja dada, porque acho que não vou defraudar as expectativas dos lisboetas e é para isso que eu estou a trabalhar.

Também sei que temos de ter realismo máximo, ou seja, nós sabemos o ponto de partida do CDS. Sempre que foi sozinho - não nos tempos mais atrás do engenheiro Krus Abecasis, que são muito inspiradores para nós, mas mais recentemente, com Paulo Portas e com Maria José Nogueira Pinto, nós tivemos 7% e 6%. Portanto, esta é a base de partida do CDS, mas nós vamos trabalhar intensamente.

Com uma coligação seria mais fácil chegar à liderança da Câmara.

Certamente que seria mais fácil, mas não é esse o contexto e nós temos é que olhar em frente e trabalhar. O nosso contexto é este e eu darei o meu melhor para poder merecer a confiança dos lisboetas e ser presidente da Câmara de Lisboa.

O coordenador autárquico do PSD, Carlos Carreiras, afirmou que será indiferente se ganhar o CDS ou o PSD, o que interessa é tirar Fernando Medina da autarquia. Que leitura é que faz?

Pois, isso tem de perguntar ao PSD, não é a mim.

Mas não mostra que seria de facto vantajoso?

Isso tem de perguntar ao PSD, certamente que seria mais fácil derrotar Fernando Medina com uma única candidatura no espaço de centro-direita. Desde o início, e mesmo quando ainda havia essa hipótese em aberto, da minha parte a preocupação é preparar-me muito bem para ser uma alternativa, não só a Fernando Medina, mas a dez anos de governação socialista na cidade que deixaram muito para fazer e, sobretudo, pensando que a cidade tem desafios extraordinários, tem um potencial enorme e precisa de motivar todos os que cá vivem para, de facto, os conseguirmos vencer e alcançar e há muito trabalho para ser feito.

Lançou a candidatura há vários meses e já tem muito trabalho no terreno. Quais são nesta altura as prioridades?

Há dois temas que eu creio que são absolutamente prioritários em Lisboa. Um deles tem a ver com toda a gente, que é a mobilidade. Dez anos depois da governação socialista, anda-se pior em Lisboa, seja de transportes colectivos, Metro, Carris, seja de automóvel, o trânsito é caótico, o estacionamento é insuficiente e, de facto, as obras que foram feitas por Fernando Medina - que não eram urgentes - obras que nós passamos por elas e até achamos que estão bonitas mas, ainda no outro dia, numa reunião com moradores da zona das Avenidas Novas, eu dizia que estavam bonitas e eles diziam: "por favor não diga isso, porque a nós perturbam-nos a vida diariamente. A nossa vida tornou-se um caos, nós não conseguimos sair daqui fluidamente, não conseguimos estacionar, de facto podem estar bonitas, mas têm sido um embaraço para as nossas vidas". E eu creio que foram desrespeitosas para aquilo que é a vivência quotidiana dos lisboetas. Pelo menos, as obras deviam ser feitas de forma faseada, de maneira a que a sua vida não ficasse um inferno.

Algumas desvantagens claras dessas obras começam a sentir-se cada vez mais e, no trânsito e na mobilidade, nós temos muito trabalho a fazer. Às vezes perguntam-me: "mas vai gastar dinheiro a tirar o que já foi feito?". Eu não sou de fazer isso. Eu assumo os contextos como eles estão. Está feito, está feito, mas isso quer dizer que agora nós tempos de trabalhar ainda mais para garantir que as pessoas podem mover-se na cidade com facilidade. Com facilidade é com comodidade, é em menor tempo, é tendo informação disponível sobre todos os meios que existem, certamente olhando para os transportes colectivos como o tronco essencial da cidade e aqui o Metro tem de ser a nossa pedra de base e, nesta matéria, agenda local cruza-se com agenda nacional, porque o Metro ficou nas mãos do Governo. António Costa, que o reclamava para a Câmara enquanto era presidente da Câmara, agora António Costa primeiro-ministro, reteve para si o Metro de Lisboa, mas a verdade é que revogou a concessão aos privados que tinha sido feita anteriormente, mas não fez nenhum investimento no Metro de Lisboa e não há nada de muito significativo que esteja a ser feito nessa matéria.

Quanto ao trânsito, que medidas concretas sugere para melhorar a situação na cidade de Lisboa? Tem já alguma ideia?

Há muitos aspectos. Nós estamos a trabalhar nisso. Vamos ter o programa apresentado depois de fechar o ciclo "Ouvir Lisboa", até ao final de Junho. Já tivemos uma grande conferência sobre mobilidade, talvez a mais participada de todas, com especialistas a falarem sobre esta matéria e as questões de trânsito têm dimensões muito diferentes.

Às vezes são questões muito específicas e até simples de resolver, outras vezes são questões mais estruturadas para resolver e que passam, nomeadamente, pelo fomento do uso do transporte colectivo, mas o que eu lhe posso dizer é que estamos a trabalhar nessa agenda para termos uma agenda forte, sólida, e que não é a pensar em quatro anos, é a pensar em muito mais anos na cidade porque os transportes são, de facto, um dos grandes problemas na cidade de Lisboa e degradou-se em vez de ter melhorado.

Eu recordo que que a cidade de Lisboa já teve quase um milhão de habitantes, 900 mil na década de 80. Hoje, a cidade de Lisboa tem 500 e pouco mil habitantes e, portanto, deve ser capaz de gerir esta matéria.

Sabemos que muitas vezes os carros que circulam na cidade e que provocam muito trânsito nem sequer são de dentro da cidade, são de fora, o que isto também sugere é que qualquer solução não é apenas na cidade de Lisboa, é olhando para toda a área metropolitana, e dialogando com os concelhos limítrofes, nomeadamente sobre parques dissuasores à entrada da cidade, para que as pessoas possam gratuitamente ou a custo muito baixo deixar o seu automóvel, mas garantir que depois, daí, têm uma rede muito ágil, muito eficaz e de qualidade de transportes que as levem para os pontos centrais onde podem por exemplo usar o Metro para chegar a mais pontos da cidade.

Os habitantes de Carnide protestaram contra a introdução do estacionamento pago no centro histórico. Como é que deve ser resolvida esta questão?

A EMEL, neste momento, é uma empresa detestada pelos lisboetas, o que é uma coisa estranha porque é paga pelos lisboetas, é uma empresa municipal, gere o estacionamento na cidade e, de facto, toda a gente tem queixas em relação à EMEL. Eu creio que faz sentido haver uma diferenciação positiva para os lisboetas. Quem vive na cidade paga os seus impostos na cidade, tem também de ter alguma diferenciação quando chega à altura de poder estacionar.

Aquilo que está a ser preparado, por exemplo, pela EMEL, com os dísticos dos residentes, é limitar cada vez mais as zonas onde os residentes podem colocar o seu automóvel. Eu recordo, por exemplo, que em Alvalade há poucas áreas neste momento e estão a planear transformar essas poucas áreas de residentes para 18 áreas. Quer dizer que a pessoa só pode estacionar mesmo naquele sítio mesmo ao pé de sua casa e em mais um pedacinho daquela mesma freguesia. É muito pouco e, portanto, também nessa área nós traremos soluções inovadoras e que passam por uma diferenciação positiva dos moradores da cidade.

Outra grande área para mim é área da pobreza, dos bairros sociais, das pessoas em situação de sem-abrigo, das pessoas em exclusão social. A minha primeira visita ao terreno foi a um bairro social e depois disso tenho feito variadíssimas visitas a bairros sociais, onde vive cerca de 20% da população de Lisboa, e aquilo que vejo e oiço é de facto dramático. Eu tenho dito muitas vezes publicamente que não acredito que Fernando Medina tenha feito alguma vez as visitas que eu faço aqueles bairros sociais, entrando em casa das pessoas, conversando com aquelas pessoas, normalmente mães que me contam e que me relatam a sua situação em casas sobrelotadas, como a da D. Ausenda, em que em quatro quartos estão 13 pessoas. Um dos quartos é habitado por uma das filhas da D. Ausenda que basicamente vive naquele quarto com os seus cinco filhos, sendo que um já tem 18 anos.

E o que é que deverá ser feito para resolver esse problema da habitação em Lisboa?

Nos bairros sociais em Lisboa estão 1.600 casas fechadas, sem serem atribuídas. No bairro da Flamenga, em Marvila, eu fui no dia a seguir a terem sido fechadas 18 casas, que eu tinha visitado, 15 dias antes. Foram fechadas com uma porta metálica para impedir o acesso a essas casas e para impedir ocupações irregulares, que muitas vezes ocorrem, mas que ninguém deseja, nem os próprios moradores, que ficam depois numa situação de pânico de virem a ser desalojados destas casas. Para mim, é absolutamente prioritário garantir que há condições para fazer as pequenas obras que têm de ser feitas, às vezes os próprios se querem oferecer para fazer essas obras e entregar de volta essas casas.

Eu tenho ouvido muita gente dizer que receberam a casa da mão do engenheiro Nuno Abecasis e que depois não foi feita mais nenhuma intervenção naquelas casas. As casas estão degradadas, não correspondem a condições de salubridade para ter uma vida condigna e muitas vezes estão sobrelotadas. E esta parte da sobrelotação das casas é que é muito crítica. E vou-lhe dizer outra coisa, a autarquia falha muito quando não olha com atenção para estes casos, é escandaloso e imoral que mantenha 1.600 casas fechadas só nos bairros sociais, porque depois em toda a Lisboa há muitas outras que também são fechadas.

Há meios financeiros na autarquia para resolver essa situação, para melhorar a condição das casas?

Na minha perspectiva, é tudo uma questão de opção política, porque se há meios financeiros para fazer obras de cosmética ou de botox nas praças de Lisboa, que nós gostamos de ver, mas que são salas de visita para turista ver e para encher o olho, certamente que tem de haver dinheiro para fazer este tipo de obras. Habitação para as pessoas que dela mais precisam, em condições de dignidade humana, eu acho que tem de ser uma absoluta prioridade para Lisboa. É falta de vontade política não fazer uma transformação nesta área.

Numa câmara em que o presidente diz que tem muito dinheiro e em que, de facto, arrecada de ano para ano cada vez mais dinheiro, nós dizemos que deve ser eliminada a taxa de protecção civil, que é ilegal. E se a Câmara tem assim tanto dinheiro pode prescindir desta taxa. A verdade é que se há tanto dinheiro, ele pode ser bem alocado, de acordo com uma grelha de prioridades que certamente não é as prioridades do que enche o olho para fora, mas que não trata de nada em profundidade da cidade.

 

A habitação no centro da cidade está, em grande parte, a ser direccionada para o turismo. Do seu ponto de vista há turismo a mais em Lisboa, é necessário reorganizar o sector?

A Câmara tem falhado muito. Em dez anos de governação socialista abandonou por completo as políticas de habitação da cidade. Sempre houve políticas de habitação na cidade, houve um instrumento que era a EPUL, que fazia muito habitação para a classe média em Lisboa, António Costa extinguiu a EPUL, não vou discutir se isso foi bom ou mau, mas o que eu posso discutir é que com a EPUL extinguiu também políticas de habitação e, portanto, é preciso encontrar políticas de habitação com ou sem um instrumento próprio para as prosseguir, mas políticas concretas que tragam gente para a cidade, até porque Lisboa é a cidade mais envelhecida da Europa, tem 30% da população acima dos 65 anos, muitos deles vivendo isoladamente, precisam de ser acompanhados e beneficiariam de mais gente na cidade.

As políticas concretas passam por olhar para o imobiliário que a própria Câmara tem e colocá-la à disposição de promotores em projectos que permitam ter imóveis, casas, para arrendamento para a classe média abaixo do preço de mercado. Eu já lancei uma proposta concreta que é pegar nos terrenos da Feira Popular, porque já foram duas vezes a hasta pública e não foram vendidos, e ali fazer mil apartamentos para a classe média com uma renda 30% abaixo do valor de mercado e creio que isso é absolutamente possível, mas quem diz aí, diz intervenção no casco histórico, onde há prédios a cair de podre, com duas ou três pessoas velhinhas que ainda aí habitam, fazer obras coercivas por parte da Câmara, mantendo esses habitantes e disponibilizando mais casas para arrendamento a preços mais baratos para outras pessoas que queiram ir para a cidade.

Arrendamento que está a ser utilizado quase sempre para o turismo. Partilha da opinião que há turismo a mais na capital?

Eu penso que não há turismo a mais, há gestão municipal e urbana a menos. É preciso encontrar novos focos para que os turistas não se concentrem todos numa área e que haja, no fundo, uma vivência mais equilibrada da própria cidade de Lisboa. Às vezes fala-se muito do alojamento local. O alojamento local foi para áreas que estavam desabitadas. 60% do alojamento local está em zonas e em edifícios que estavam absolutamente devolutos. Isso trouxe uma nova vida à cidade e trouxe mais gente a querer olhar para essas zonas que estavam fora do radar, porque não tinham gente, não tinham vida, a partir das sete da tarde estavam completamente mortas, e que agora podem ter algum interesse.

E aqui também eu creio que é preciso sermos verdadeiros. Há zonas no casco histórico da cidade, na baixa, na Mouraria, nos bairros mais antigos, onde hoje é difícil viver 365 dias por ano. Uma família com filhos não quer viver numa rua estreitinha onde não entra a luz, onde não entra o sol. Por que é que as pessoas também se foram afastando? Porque não havia habitação no centro da cidade e porque ela é uma habitação antiga, edifícios que não têm instalações sanitárias, com escadas estreitinhas e muito íngremes onde não é possível colocar um elevador. Portanto, há zonas onde não é possível viver de acordo com os padrões do século XXI. Nós não queremos ir para esse tipo de casas. Há alguns sítios que sim, que será possível fazer construção nova, mantendo fachadas, mas reabilitando totalmente, fazendo de novo, totalmente, com outro tipo de dinâmica.

Eu creio que é por aí que nós temos de andar, olhando muito para os mais idosos, que muitas vezes estão prisioneiros nas suas casas, olhando para aqueles que vivem na rua e garantindo que não há gente a viver na rua em Lisboa e que há soluções para essas pessoas, garantindo que nos bairros sociais há condições para as pessoas viverem, e há uma verdadeira intervenção no sentido do desenvolvimento social e, portanto, olhando, para uma cidade que é equilibrada e que não é só para inglês ver.

 

 

 

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