O que claramente chumba é este modelo de aferição - Ana Rita Bessa
Quarta, 11 Outubro 2017 19:03    PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

ana rita bessa artvSenhor Presidente,

Senhoras e Senhores Deputados,

Há dois anos o Ministro da Educação disse aos alunos e aos pais:

“Ninguém tem de se preparar para as provas de aferição”

“Não tem de haver treino”

Muito bem, aqui estão os resultados:

Na prova conjunta de Ciência Naturais e Físico-Química do 8.º ano, em todas as áreas avaliadas, mais de 80% dos alunos revelaram dificuldades. Na prova de Português, 67% dos alunos tiveram dificuldades no domínio da escrita. O mesmo aconteceu em relação à gramática para 70% dos alunos.

Ou seja, ninguém se preparou.

No 5.º ano de escolaridade o desempenho negativo aproximou-se ou ultrapassou os 80% em todos as áreas da nova prova de Matemática e Ciências Naturais. Também na prova global de História e Geografia de Portugal mais de 50% dos alunos revelaram dificuldades nas suas respostas.

Ou seja, ninguém treinou.

Apenas os alunos do 2.º ano, que fizeram provas de Expressões Artísticas e Físico-Motoras, conseguiram desempenhos dentro do esperado. Curiosamente, o Ministério – em contradição com o Ministro - adiantou os "guiões" da prova e até um vídeo exemplificativo do conjunto de exercícios a realizar.

Ou seja, a única prova com bons resultados foi exatamente aquela para a qual os alunos se prepararam.

Disse o Ministro, sobre as provas de aferição:

“ninguém tem que se inquietar”.

Diz o Secretário de Estado, sobre os resultados das mesmas provas:

“ninguém pode ficar tranquilo”.

Neste diz que disse, o que claramente chumba é este modelo.

A fiabilidade das provas de aferição é posta em causa porque apresenta resultados muito diferentes dos anteriores exames finais de ciclo.

Ou seja, exames que foram realizados recentemente, com os mesmos currículos, pelas mesmas escolas, com os mesmos professores não resultaram neste desastre.

Portanto,

ou o modelo de aferição não é fiável

ou as mesmas escolas e os mesmos professores deixaram de saber ensinar de um ano para o outro.

Inacreditável e subtilmente o Ministério escolhe a segunda explicação, ao apresentar como solução – para este desastre – um Plano de Formação de Professores.

Uma prova que nos foi vendida como de acompanhamento individual de cada aluno, que deveria promover a autonomia a responsabilização das escolas pelos planos de recuperação, gerou afinal, e tão rapidamente, uma resposta centralista do Governo.

Se esta é a solução que nos dão, então definitivamente o problema não está nem nos professores nem nos alunos.

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados,

Infelizmente este não é, nem o único problema, nem o único desastre.

O ano letivo começou com escolas a ameaçar fechar por falta de funcionários.

O CDS vem alertando para este problema há mais de um ano e até concordamos com o Sr. Ministro quando diz que “mais assistentes operacionais é absolutamente fundamental”.

Por isso apresentamos sobre esta matéria um projeto de resolução que foi aprovado pelo Parlamento, mas ignorado pelo Governo.

É que a politica do Sr. Ministro é tão inconsequente quanto as suas muitas afirmações,

em outubro de 2016 garantiu estar a trabalhar numa nova portaria dos rácios;

em dezembro afirmou, afinal, nunca termos tido tantos funcionários nas escolas;

em fevereiro de 2017 voltou a dizer que era preciso reforçar o pessoal não docente;

em março prometeu que, até ao início do ano letivo, seria alterada a portaria de rácios;

em maio e julho insistiu que o Governo estava a trabalhar num reforço dos funcionários.

Mas já só depois das aulas terem começado, foi publicada a dita portaria. E ainda falta lançar os concursos - pelo que o ano letivo começa, e por muito meses continuará, exatamente como o anterior: em rutura. 

Mesmo a colocação de professores, “jóia da coroa” em 2016, não correu bem este ano.

Muitos professores foram surpreendidos por uma inesperada mudança de regras, que levou a que fossem colocados a centenas de quilómetros da sua área de residência, com pesadíssimos custos profissionais e familiares.

Até no 5 de outubro, Dia Mundial do Professor, o governo teve a desfaçatez de se desculpar, dizendo que todos os professores estavam numa preferência por si indicada.

Omitiu duas coisas:

-  que as regras aplicadas não eram conhecidas pelos professores;

 - e que, para ser colocado, cada professor, teve que manifestar, numa plataforma informática, mais de 100 preferências.

Ao omitir fez parecer que o erro do ministério era afinal má fé dos professores. Ao erro acrescentou o insulto.

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados,

Enquanto o Governo anuncia a tranquilidade nas escolas, e os seus parceiros escolhem o silêncio, os sindicatos ameaçam com a greve.

E também os pais têm motivos para estar preocupados:

na educação pré-escolar repetiu-se o cenário de 2016 e a universalização aos 3 anos, tantas vezes anunciada, está longe de ser realizada e nem aos 4 anos foi concretizada. Mesmo o anúncio da abertura de 70 novas salas deixou de fora mais de 1500 crianças.

Se a proposta do CDS, de contratualizar vagas com o sistema social e privado tivesse sido aprovada, estas 1500 crianças estariam hoje na escola e a universalização do pré-escolar aos 3 anos, defendida por todos os partidos, estaria hoje feita em benefício das famílias e dos seus filhos.

No CDS temos apresentado e continuaremos a apresentar propostas construtivas para resolver muitos dos problemas por todos identificados. E nem a oposição radical de alguns, aqui no Parlamento, nem a desconsideração institucional do Governo em matérias aprovadas nesta casa, mudarão esta atitude.

Porque como este início de ano escolar demonstrou, nem os problemas estão resolvidos nem se resolvem com anúncios repetidos e inconsequentes.

 

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