“Mais uma vez com este Governo há dificuldade na gestão de uma crise”
Sexta, 13 Março 2020 21:31    PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

telmo correia publico 2020No dia em que o CDS-PP agendou um debate de actualidade sobre a resposta do Governo ao coronavírus, o líder da bancada diz ter a sensação de que Portugal não reagiu “de forma eficaz”. Em entrevista ao PÚBLICO, Telmo Correia assume não ter certezas de que a legislatura chegue ao fim.

Advogado, 60 anos, Telmo Correia assume pela terceira vez as funções de liderança da bancada dos centristas, depois de não ter apoiado Francisco Rodrigues dos Santos no congresso. Na primeira entrevista desde que foi eleito, defende que o CDS deve ser um partido “popular” mas não “populista” e que a diferenciação face ao Chega vai ser “natural e óbvia”. 

Como é que o Governo está a gerir esta crise do coronavírus? Tomou medidas proporcionais ou foi pouco proactivo nesta fase inicial?
Em primeiro lugar, quero sublinhar que, independentemente das decisões do Governo, o CDS definiu uma linha de, sempre que possível, evitar que isto seja foco de arremesso político ou de partidarização. Uma coisa é evitarmos politiquice e alarmismo, outra coisa é permitirmos que haja improvisação ou algum laxismo. Não temos certezas absolutas nesta matéria, mas dou vários exemplos. O CDS começou por defender que devia haver um maior controlo nos aeroportos. Não foi feito. Em segundo lugar, perguntámos porque é que os voos vindos de zonas endémicas - fosse China ou Itália - não eram primeiro controlados e depois eventualmente suspensos. O Governo suspendeu, agora, os voos de Itália. A minha pergunta é se não perdermos demasiado tempo. Outro exemplo: a questão da Linha Saúde 24. Nós fomos denunciando que a linha não estava a funcionar e sei de um caso de uma pessoa que procurou informar-se que ficou à espera de um dia inteiro por resposta. Mas há ainda uma questão mais importante: as pessoas que vieram de zonas endémicas que contactaram com a Linha Saúde 24 terão sido aconselhadas a fazer a sua vida normal. Aí já não estamos no campo do alarmismo, estamos no campo da irresponsabilidade. 

O nosso sistema não está preparado para situações limite?
Nós temos conferências de imprensa em que começaram por nos dizer que, se calhar, nem chegava cá o problema. A informação que tenho - e colocarei essa questão no debate - é que não há análise para corpos clínicos. Os profissionais de saúde estão expostos a um risco e não há sequer a possibilidade de fazerem análises? As recomendações são as de fazermos o maior número de testes possível, porque isso pode ajudar a prevenir o contágio. Também vamos recebendo relatos de que o material de protecção não é suficiente. A grande questão é a de sabermos se reagimos de forma eficaz ou não. Infelizmente tenho a sensação de que não e tenho a obrigação de colocar estas questões em cima da mesa. Acho que pior do que o alarmismo é o laxismo. A minha dúvida é se não usámos aqui um certo “nacional-porreirismo” do “isto não é grave” e é tudo muito casuístico - nuns casos fecha noutros não. Não há instruções claras. Vi as universidades a serem fechadas, mas não vi ninguém publicamente a dizer ‘atenção não vão para os centros comerciais, não vão para espaços públicos, não vão para a praia’. A sensação que tenho é que, mais uma vez e com o mesmo Governo, há uma dificuldade na gestão de crises, há uma dificuldade na relação com a autoridade. Dá a impressão de que os governos socialistas querem dar a ideia de um falso optimismo e depois acabam por ir atrás do prejuízo e a terem de tomar medidas mais drásticas. Não sei porque é que alguns serviços públicos não param também. Estou a pensar em repartições de finanças, centros de emprego. A recomendação óbvia é fazer pela Internet, mantendo serviços mínimos.

 

Com a nova liderança, o CDS votou ao lado do PS contra a redução do IVA da electricidade, absteve-se na questão das PPP e disse que faria tudo para viabilizar o aeroporto do Montijo. Não corre o risco de se tornar uma muleta do Governo?
Acho que não. Há aí algum factor de coincidência, ou seja, não é uma linha estratégica. Na questão do IVA da electricidade, o CDS nunca tinha priorizado essa matéria como objectivo em termos orçamentais. Foi confrontado com essa decisão porque o PSD fez disso o seu cavalo de batalha. Em relação ao aeroporto, tenho um à-vontade particular, talvez tenha sido das primeiras pessoas na política a dizer que a solução mais adequada era ‘Portela mais Montijo’. Nas PPP, o CDS apresentou propostas alternativas e não fazia sentido votar a favor da cessação da vigência. Depois, o CDS é um partido confiável e tem compromissos com uma câmara [do Porto] em que o CDS está no poder e em coligação e honrou esses compromissos. O PSD não tem a mesma posição e a mesma responsabilidade.

Nesta nova liderança do CDS a postura alterou-se e parece ser menos agressiva em relação ao PS e admitir algumas pontes com o Governo. É assim?
Quem define a estratégia é o presidente do partido e só ele pode dizer o que pretende. O CDS tem uma nova direcção e faz sentido que procure um diálogo geral e global. Não faz sentido começar um percurso enquistado na posição anterior. Não foi essa a percepção do congresso, mas sim a de que, qualquer que fosse o presidente eleito, havia uma mudança. É natural que o presidente do CDS queira começar um novo estilo. A questão que coloco tem a ver com a mudança do ciclo político. Não temos a mesma realidade. Não há um sistema de blocos definido no Parlamento. É mais difícil para o CDS e já disse ao presidente do partido que o CDS tem de definir quais são os seus objectivos, as suas convicções e segui-las, independentemente da maioria que se possa formar para resolver um determinado problema.

Acha que esta legislatura vai chegar ao fim?
O PS teve mais votos, o partido que governa reforçou o seu peso, mas a instabilidade é maior. Porque não conseguiram fazer um acordo sólido com aqueles que são os seus parceiros e que hoje continuam a dizer que o são. Os seus parceiros estão um bocadinho… à solta, nas suas ideias e objectivos.

Mais um do que outro.
Mas esse um [BE] representa uma versão mais populista de esquerda. Enquanto o outro é um partido mais estruturado, mais rígido...

Estamos a falar do PCP.
É um partido que não inventa tanto na sua acção política, apesar de poder ser igualmente errado. Ao populismo do BE somam-se o de outras formações também à esquerda, como é o caso do PAN. Tudo isso leva a que tenha de haver uma recomposição política. É muito difícil fazê-la com este primeiro-ministro e com este Governo. Não sei se não terá de sair de eleições. Não há nenhuma certeza de que esta legislatura chegue ao fim, mas, usando um lugar-comum, prognósticos só no fim de um qualquer orçamento. 

 

«Estamos todos no mesmo barco»

O CDS quer distanciar-se do Chega?
Não é o único protagonista novo com quem temos de lidar. O PAN, por exemplo, representa uma doutrina de um certo animalismo radical que se contrapõe ao nosso humanismo, mas os temas existem e temos de responder a eles. Não deixam de ser curiosas algumas propostas sobre os animais para quem defende a eutanásia em relação às pessoas. A Iniciativa Liberal é um partido ideológico, o CDS é um partido doutrinário. Lidaremos concorrencialmente e quem tiver unhas é que toca guitarra. Realidade diferente é a representada pelo Chega. Não precisamos de fazer nenhum exercício de diferenciação, ela vai ser natural e óbvia. Sou muito contrário à ideia de ataque ad hominem ao deputado do Chega que, de resto, no seu comportamento em geral, é igual a qualquer outro e tem uma postura afável. Mas o deputado André Ventura procura integrar uma corrente ou trazer para Portugal uma série de tiques -que não são a diabolização que se faz, é um disparate, e é uma forma de promoção do próprio absolutamente desnecessária, em que, eu acho, alguma esquerda tem caído e o próprio presidente da Assembleia da República não está isento. Isso é um erro. O CDS quer ser um partido popular mas não quer ser um partido populista. Um partido popular é responder às preocupações das pessoas e falar claro e simples. Ser populista é passar a vida escandalizado com tudo, odiar o mundo em que vivemos, é tudo horrível.

É tudo uma vergonha?
É tudo uma vergonha. E tentamos escandalizar toda a gente, fazendo-o por exagero e dizendo ‘são todos iguais’. Baseado sobretudo em noções básicas que, às vezes, vão ao encontro de uma opinião generalizada mas nem sempre sustentada. Não procurando soluções. O CDS não teve, não tem e não terá nada a ver com isso. Até porque o populismo não leva normalmente a soluções de Governo. O CDS foi e deve querer voltar a ser partido de Governo. 

Não acredita em agregações, federações ou coligações prévias a legislativas?
Sem ir a votos parece-me muito difícil. No espaço de centro-direita - eu sempre fui de direita e é aí que o CDS deve estar - há quem fuja para o centro. 

Esta semana ouvimos Paulo Mota Pinto defender essa ideia. 
Há um PSD que prefere fugir ou esconder-se no centro, ainda que grande parte do partido esteja numa posição mais próxima, no mínimo, do centro-direita. E há o CDS que acha que é preciso uma recomposição de uma maioria diferente desta, que incluirá o espaço do centro e da direita, porque hoje só a direita está muito longe. Se me pergunta se estou preocupado com o crescimento de forças populistas à direita, nós temos forças populistas à esquerda com 20%, se calhar não é a maior preocupação do país. Se o primeiro-ministro se trata de grande amizade com o populismo de extrema-esquerda, o populismo à direita - nem sequer acho que seja de extrema-direita - não é a maior preocupação. O CDS está em teste e este Governo também. O Governo começa cansado, com os mesmos rostos, os mesmos protagonistas e infelizmente em situações muito difíceis em mãos. Se não der conta dos recados múltiplos e difíceis, o país terá de construir outra solução e o CDS terá de estar preparado para isso.

O CDS vai apresentar propostas no processo de revisão constitucional aberto pelo Chega?
Nós queremos uma revisão constitucional e há áreas muito importantes como a justiça. Estamos a assistir a uma falta de credibilidade na justiça, por culpa do Governo ou não. O CDS vai começar a trabalhar num projecto de revisão constitucional, mas temos de avaliar se este processo será de revisão constitucional ou se, por omissão de outras forças políticas, será resolvido em duas ou três reuniões. O CDS irá, se for uma revisão constitucional a sério e global e não para dar cobertura a uma ou duas ideias populistas.

Acha que há condições para haver paz interna, depois de terem ficado afastados da direcção quase todos os dirigentes do portismo?
Eu sou amigo pessoal do dr. Paulo Portas. Já era dirigente do CDS quando o dr. Paulo Portas se filiou. Por isso, não me identifico com o portismo, apesar de considerar, com respeito pelas gerações dos fundadores, que Paulo Portas foi o presidente mais relevante que o CDS teve até hoje. Em relação ao presidente eleito, é um jovem cujo talento e energia são factores indiscutíveis e eventualmente decisivos. Ganhou o congresso e com mérito. E traz novidade e energia. É evidente que o partido precisa também de alguma experiência e de lastro. É daí que poderemos construir uma solução que seja positiva. Pergunta-me se há condições. Temos a noção de uma coisa: estamos todos no mesmo barco, o barco é o CDS e a intenção é a de levar o barco a bom porto. Essa unidade tem de se construir na diversidade geracional, de experiências, de posição na vida pública. Da minha parte e em nome do grupo parlamentar há um compromisso total com o ajudar a levantar o CDS. 

 

Fonte: Público

 

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